terça-feira, 19 de agosto de 2008

Surdocegueira

Um trabalho muito interessante publicado na Revista Sentidos divulgando o trabalho da professora Ariane Massicano, aqui parte da entrevista.


Professora fala sobre metodologias aplicadas ao Surdocego e Múltiplo Deficiente Sensorial, tendo em vista o processo inclusivo
O que é surdocegueira?
Existem várias definições condizentes. Seria pertinente esclarecer que a surdocegueira é uma deficiência única que apresenta a perda da audição e visão de tal forma que a combinação das duas deficiências impossibilita o uso dos sentidos de distância, cria necessidades especiais de comunicação, causa extrema dificuldade na conquista de metas educacionais, vocacionais, recreativas, sociais, para acessar informações e compreender o mundo que o cerca. Nesse sentido, temos vários autores tais como Writer, Freeman, Wheeler & Griffin, McInnes, dentre outros, que defendem a surdocegueira como única e não como a soma de dois comprometimentos sensoriais. Segundo o Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e Múltiplo Deficiente Sensorial embora a surdocegueira possua duas deficiências associadas - a surdez e a cegueira - não se trata da somatória de ambas mas uma deficiência única que apresenta características peculiares como graves perdas auditivas e visuais, levando quem a possui, ter formas específicas de comunicação. Cabe ressaltar que existem vários tipos de surdocegueira como cegueira congênita e surdez adquirida, surdez congênita e cegueira adquirida, cegueira e surdez congênita, cegueira e surdez adquirida, baixa visão com surdez congênita ou adquirida.
Quais são as causas dessa deficiência?
Antigamente, pensava-se que a principal causa da surdocegueira seria a síndrome da Rubéola Congênita. Hoje em dia, com a tecnologia mais avançada, sabe-se que as principais causas se relacionam com a prematuridade ou com várias anomalias, tais como: rubéola, síndromes (Down, Usher, Trissomia 13, entre outras), anomalias congênitas (associação de CHARGE, hidrocefalia, microcefalia, síndrome fetal alcoólica, abuso de drogas pela mãe, entre outras), prematuridade e disfunções pré-natais congênitas (SIDA, toxoplasmose, herpes, sífilis, rubéola, citomegalovírus, dentre outros) e causas pós-natais (asfixia, traumatismo craniano, encefalite, meningite, sarampo, caxumba, dentre outros). Há, no entanto, estudiosos que acreditam que a principal causa é ainda desconhecida.
É possível perceber que uma criança é surdocega logo ao nascer?
Logo após o nascimento de uma criança uma equipe médica se disponibiliza para averiguar o desenvolvimento e aspectos gerais da criança e especificamente aquela que é surdacega dispõe de características únicas, que resultam do efeito combinado das deficiências auditiva e visual. Ao nascer essa criança sentirá extremo desconforto demonstrando irritação e choro constante devido à possível falta desses sentidos. Contudo isso só poderá se confirmar através de um diagnóstico diferencial abrangendo diferentes tipos de exames como os laboratoriais, exames médicos (neurológico, visão, audição, físico), avaliações genéticas, dentre outros. Cabe ressaltar que se a criança já possui um histórico que sugestiona qualquer comprometimento e\ou deficiência os médicos estarão atentos a qualquer indício podendo assim orientar e encaminhar a família de forma adequada.
Como a criança surdocega reage às novas situações?
Segundo os autores Telford & Sawrey (1976), quando a visão e a audição estão gravemente comprometidas, os problemas relacionados à aprendizagem dos comportamentos socialmente aceitos e a adaptação ao meio se multiplicam. A falta dessas percepções e sentidos limita a criança surdocega na antecipação do que vai ocorrer a sua volta. Sua dificuldade na antecipação dos fatos faz com que cada experiência possa parecer nova e assustadora, como ser transportada de um lugar para o outro, sentir na boca a introdução de um alimento novo ou ser tocado repentinamente. Ainda como resultado da privação de sentidos (visão e audição), sua motivação na exploração do ambiente é proporcionalmente diminuída. Seu mundo se limita ao que por casualidade está ao alcance de sua mão e, sobretudo a si mesmo.
Quais são os recursos educacionais utilizados no desenvolvimento dessa criança?
Quando se nasce surdocego não se sabe o que o mundo apresenta, que existem formas, cores, números, diversidade de coisas, pode-se até nunca descobrir a "noção do eu". Afinal é o ato de aprender que nos distingue dos outros, portanto, há que se aproveitar cada momento para aprender e preparar as competências para o que a seguir virá. Para um surdocego há metas que se impõem e intervenções que devem ser realizadas e há que se desenvolver uma aprendizagem de maneira diferenciada, com metodologias específicas abrangendo e esgotando todas as formas passíveis de contribuição ao seu desenvolvimento global. Além dessas questões, é importante que a criança esteja motivada a participar de experiências externas, ainda que básicas, como alimentação, higiene, lazer, etc.
Como é essa aprendizagem?
O processo de aprendizagem ocorre por repetição e estimulação orientada em contextos naturais, dado que a surdocegueira interfere na capacidade de aprendizagem espontânea e na de imitação. Sabe-se que o aprendizado da via de comunicação exige atendimento especializado com estimulação específica e individualizada. Quando a criança é estimulada precocemente, ela adquire comportamentos sociais mais adequados e também poderá desenvolver e aprender a usar seus sentidos remanescentes melhor do que aquela que não recebeu atendimento.
Como ela se comunica?
Segundo o autor Nunes (2000), "o processo comunicativo envolve recepção da informação e a respectiva compreensão da mensagem. Desde muito cedo, a criança começa a perceber o que é a fala e que os diferentes tons de voz, as expressões faciais, os gestos e os toques, pretendem dizer-lhe algo, ou seja, que esses comportamentos têm significados" (p.48). No entanto, para a criança surdocega é importante considerar cuidadosamente as formas de como transmitir a informação e como lhe será permitido que comece a antecipar o que vai acontecer. A comunicação pode ser receptiva - processo de recepção e compreensão de mensagens ou expressiva - forma como expressar desejos, necessidades e sentimentos. Os recursos de comunicação usados pelas pessoas surdocegas são vários (sistemas alfabéticos: dactilológicos, letras maiúsculas, tablitas, braille, máquina de escrever em tinta ou braille e sistemas não-alfabéticos: LIBRAS, LIBRAS adaptada, leitura labial, Tadoma, movimentos corporais, sinais no corpo, símbolos, sistemas suplementares de comunicação como levantar a cabeça, dentre outros). Entre todos, o tato constitui a via promissora no estabelecimento das interações com o ambiente.
Quais são as metodologias aplicadas ao surdocego e múltiplo deficiente sensorial, tendo em vista o processo inclusivo?
Deve-se partir de uma questão central que é a de definir com clareza que inclusão está sendo focalizada e qual o tipo de inclusão que propiciaria as crianças com necessidades especiais maiores benefícios para seu desenvolvimento e bem estar. Temos subsídios pertinentes a essa temática. Recentemente pudemos dispor da socialização de uma videoconferência que abordou justamente esse tema explicitando a real situação da inclusão de surdocegos na rede regular de ensino. Modalidades de atendimento, política educacional, adaptação curricular, ambientes estruturados, equipamentos e materiais específicos. Enfim, educadores e representantes do governo buscando alternativas e possibilidades passíveis de contribuição ao desenvolvimento do processo inclusivo do surdocego. Mas, para que ocorra efetivamente a inclusão de crianças surdocegas e com múltipla deficiência sensorial se faz necessário um preparo cuidadoso em vários níveis e aspectos entre os quais caberia citar a formação de profissionais, o preparo das condições quanto às possibilidades e limites que a escola oferece, adequando-a quando necessário, ao conhecimento e socialização acerca do bem estar da criança deficiente, adaptações e alterações curriculares complementares com objetivos funcionais, dentre outros. A surdocegueira não deve ser vista meramente pelo ângulo físico e social, precisa ser considerada dentro de um contexto mais amplo e existencial do ser humano.

4 comentários:

Fernanda de Oliveira Vieira disse...

Olá, trabalho na APAE de Cachoeira do Sul -RS, sou secretária e professora da sala digital, onde atendo várias turmas. Estou participando junto com outras duas colegas de um curso em módulos promovido pela Coordenadoria de Educação de nosso município sobre surdocegueira. No próximo encontro temos que apresentar pesquisas da internet e falerei das matérias encontradas neste Blog.Parabéns pelo Blog.
Abraço
Blog da APAE: apaecachoeiradosul.blogspot.com

Priscilla disse...

Gostei muito dessa matéria sobre surdocegueira, vocês tem como me passarem a bibliografia usada nesse texto, pois gostaria de usar alguma coisa dele em um trabalho acadêmico, porém sem referências não posso, desde já agradeço!

Priscilla disse...

Gostaria de sbaer se o texto usado na matéria sobre surdocegueira possuiu bibliografia, gostaria de usar em um trabalho academico, e para isso precisaria da referência dele, desde já gradeço! Obrigada

Anônimo disse...

Professora, seu site realmente é muito bom. Pois, há muita informação relevante sobre educação inclusiva, acessibilidade, deficiência....Discussões sobre estes assuntos e reflexões..Agora, sei quando precisar fazer uma pesquisa destes assuntos, onde ir buscar. Bom, este conteúdo é fonte confiável, porque, maioria dos professores querem saber onde tiramos os contextos (quando pesquisa). Só dizer que é do site da Prof° Regina que não haverá constestação nem uma....Conteúdo 100% confiável...
Abraço e tudo de bom !!!

Marcos Juares dos Santos - LICO/Feevale.