terça-feira, 3 de agosto de 2010

Dra. Rita Levi-Montalcini - Presidente Honorária da Associação Italiana de Esclerose Múltipla


Recebi esta entrevista da minha orientadora de doutorado, Lucila Santarosa. Gostei muito e estou repassando.

A italiana neurologista Dra. Rita Levi-Montalcini, que completou 100 anos no dia 22 de abril de 2009,recebeu o Prêmio Nobel de Medicina há 23, quando tinha 77. Ela nasceu em Turím, Itália, em 1909 e obteve o título de Medicina na especialidade de Neurocirurgia.
Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de San Louis.
Em 1951 veio ao Brasil, para realizar experiências de culturas in vitro no Instituo de Biofísica da Universidade do Rio de Janeiro, onde, em dezembro do mesmo ano, a pesquisadora consegue identificar o fator de crescimento das células nervosas (Nerve Growth Factor, conhecido como NGF). Esta descoberta lhe valeu, em 1986, o Premio Nobel para a Medicina, junto com Stanley Cohen.

Entrevista no dia 22/12/2005-
Como vai celebrar seus 100 anos?
- Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!

-E o que você faz?
-Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem ... elas e seus países. E continuo investigando, continuo pensando.

-E como está seu cérebro?
-Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nemem capacidade. Amanhã voo para um congresso médico.

-Mas terá algum limite genético ?
-Não. Meu cérebro vai ter um século... mas não conhece a senilidade... O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!

-Como você faz isso?
-Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!

-Ajude-me a fazê-lo.
-Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faça com que ele trabalhe e ele nunca se degenerará

-E viverei mais anos?
-Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante.A chave é: manter curiosidades, empenho, ter paixões....veja...não me refiro a paixões físicas especificamente...simplesmente tenha paixões.

-A sua foi a investigação científica...
-Sim e segue sendo .

-Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso...
-Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o prêmio por isso.Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?-Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.

-Seu pai ficou magoado?
-Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa... Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior...

Vejo que isso foi um estímulo...
-Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho!

E você tem feito... com sua ciência.
-E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos países islâmicos por exemplo, além de outras coisas...

-A religião freia o desenvolvimento cognitivo?
-A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.

-Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher?
-Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.

Por que ainda existem poucas cientistas?
-Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.

-É verdade?
-A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!

-A sábia Alexandrina do século IV...
-Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela foi. Claro, o mundo tem melhorado algo...

-Ninguém tem tentado assassinar você...
-Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição aos judeus... e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto... E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!

Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?
-A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel...

-Como você explica a loucura nazista?
-Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!

-Isto está acontecendo agora?
-Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?

-A ideologia é emoção, é sem razão?
-A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós não. E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!

-Você nunca se casou ou teve filhos?
-Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!

-Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?
-Curar... O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.

-Qual é hoje seu grande sonho?
-Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.

-Quando deixou de sentir se feia?
-Ainda estou consciente de minhas limitações!

O que tem sido o melhor da sua vida?
-Ajudar aos demais

- O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
- Mas eu estou fazendo!!!!


A Dra. Rita Levi-Montalcini
é, desde 2001, Senadora Vitalícia da República Italiana, nomeada
diretamente pelo Presidente Carlo Azeglio Ciampi.


Entrevista: recebida por e-mail

4 comentários:

Eliane Clara Pepino disse...

Regina encontrei seu blog formidável é td o que procuro e quero atuar intensamente no final do meu processo da educação ,Não vejo uma educação quadrada quero uma educação progressista,que entenda,que faça a diferença que leve ferramentas para que essa máquina linda chamada cerebro esconde uma alma que pulsa,pensa,tem anseios,ama!
Seja nossa seguidora tb!Entre na campanha 100 seguidores multiplicadores de leitores !Do meu aluno,amigo e ser humano cheio de sonhos tb !E não porque veio cm PC que o impede de idealizar e tentar fazer a diferença no seu viver.
Um abraço cheio de luz!

Cleber Koch disse...

Que exemplo de vida! Além de já ser tão velhinha ainda faz coisas para ajudar os outros, como é o caso das meninas africanas.
Adorei a entrevista!
Ass.: Cleber Koch

Lucas Portilho disse...

Dra. Rita Levi-Montalcini, é um belo exemplo de dedicação e persistência no que diz respeito as suas pesquisas como neurocientista. Devemos a ela, grandes descobertas que proporcionaram avanços significativos nessa área. Além disso, o que mais impressiona, analisando sua entrevista, é a demonstração de preocupação em ajudar outras pessoas, como no caso das meninas da África.

Maisa disse...

Uma vida inteira dedicada a buscar fazer algo pelo outro. Que grande exemplo para nós ainda tão pequenos! A Dra. Riti Levi-Montalcini certamente não pecou pela omissão, que é esse pecado se faz por nada se fazer... E agora me pego pensando em quantas vezes, por comodidade, deixei de fazer algo pelo outro, uma vez que isso "atrapalharia" o meru domingo, o meu tempo de lazer... Quer ver uma coisa?! Dar atenção aos avós já velhinhos é também lidar com a deficiência, essa que chegará para todos nós que vivermos por muitos anos. E muitas vezes, porque a deficiência dos idosos difere do sistema de vida juvenil, deixamos nossos avós sozinhos, de lado, preferindo não pensar sobre isso porque doi, mas garantirmos o nosso domingo no nosso egoísmo e falta de solidariedade.
Aluna Maisa Selbach - Inclusão Educativa semestre 2011 01