quarta-feira, 2 de julho de 2008

Sou fã do Rubem Alves

Infância , maturidade e velhice

Não sei quando começou minha admiração pelo Rubem Alves, já vem de longa data. Já li vários livros dele e sempre me encanto com sua forma poética de escrever sobre as coisas mais simples. Quem o conhece sabe que é assim mesmo... de uma simples palavra ele consegue filosofar nos transportando a questionamentos nunca pensados anteriormente...

Encontrei, no site do Aprendiz este texto que sempre inicio o semestre, na minha disciplina de Inclusão Educativa, lendo para meus alunos. Normalmente é um argumento que utilizo para acalmar os ânimos. Falo isso porque alguns já chegam cheios de argumentos contra a inclusão e após tanto tempo trabalhando com isso já os conheço muito bem. Deixo que falem tudo que desejam. Ao final da primeira aula e após a leitura deste texto, pelo menos o silêncio impera e com certeza os alunos vão embora para suas casas pensando em seu futuro e o quanto a inclusão será necessária na sua velhice...
Obrigada Rubem Alves.


Carta aos pais

Também sou pai e portanto compreendo. Vocês querem o melhor para o filho, para a filha. A melhor escola, os melhores professores, os melhores colegas. Vocês querem que filhos e filhas fiquem bem preparados para a vida. A vida é dura e só sobrevivem os mais aptos. É preciso ter uma boa educação.
Compreendo, portanto, que vocês tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma política estranha: colocar crianças deficientes nas mesmas classes das crianças normais. Os seus narizes torcidos disseram o seguinte: Não gostamos. Não deveria ser assim! O problema começa com o fato de as crianças deficientes serem fisicamente diferentes das outras, chegando mesmo, por vezes, a ter uma aparência esquisita. E isso cria, de saída, um mal-estar... digamos... estético. Vê-las não é uma experiência agradável. É preciso se acostumar... Para complicar há o fato de as crianças deficientes serem mais lerdas: elas aprendem devagar. As professoras vão ser forçadas a diminuir o ritmo do programa para que elas não fiquem para trás. E isso, evidentemente, trará prejuízos para nossos filhos e filhas, normais, bonitos, inteligentes. É preciso ser realista; a escola é uma maratona para se passar no vestibular. É para isso que elas existem. Quem fica para trás não entra... O certo mesmo seria ter escolas especializadas, separadas, onde os deficientes aprenderiam o que podem aprender, sem atrapalhar os outros.
Se é assim que vocês pensam eu lhes digo: Tratem de mudar sua maneira de pensar rapidamente porque, caso contrário, vocês irão colher frutos muito amargos no futuro. Porque, quer vocês queiram quer não, o tempo se encarregará de fazê-los deficientes.
É possível que na sua casa, num lugar de destaque, em meio às peças de decoração, esteja um exemplar das Escrituras Sagradas. Via de regra a Bíblia está lá por superstição. As pessoas acreditam que Deus vai proteger. Se assim fosse, melhor que seguro de vida seria levar uma Bíblia sempre no bolso. Não sei se vocês a lêem. Deveriam. E sugiro um poema sombrio, triste e verdadeiro do livro de Eclesiastes. O autor, já velho, aconselha os moços a pensar na velhice. Lembra-te do Criador na tua mocidade, antes que cheguem os dias das dores e se aproximem os anos dos quais dirás: "Não tenho mais alegrias..." Antes que se escureça a luz do sol, da lua e das estrelas e voltem as nuvens depois da chuva... Antes que os guardas da casa comecem a tremer e os homens fortes a ficar curvados... Antes que as mós sejam poucas e pararem de moer... Antes que a escuridão envolva os que olham pelas janelas... Antes que as pessoas se levantem com o canto dos pássaros... Antes que cessem todas as canções... Então se terá medo das alturas e se terá medo de andar nos caminhos planos... Quando a amendoeira florescer com suas flores brancas, quando um simples gafanhoto ficar pesado e as alcaparras não tiverem mais gosto... Antes que se rompa o fio de prata e se despedace a taça de ouro e se quebre o cântaro junto à fonte e se parta a roldana do poço e o pó volte à terra... Brumas, brumas, tudo são brumas... (Eclesiastes 12: 1-8)
Os semitas eram poetas. Escreviam por meio de metáforas. Metáfora é uma palavra que sugere uma outra. Tudo o que está escrito nesse poema se refere a você, a mim, a todos. Antes que se escureça a luz do sol... Sim, chegará o momento em que os seus olhos não verão como viam na mocidade. Os seus braços ficarão fracos e tremerão no seu corpo curvo. As mós - seus dentes - não mais moerão por serem poucos. E a cama pela manhã, tão gostosa no tempo da mocidade, ficará incômoda. Você se levantará tão cedo quanto os pássaros e terá medo de andar por não ver direito o caminho. É preciso ser prudente porque os velhos caem com facilidade por causa de suas pernas bambas e podem quebrar a cabeça do fêmur. Pode até ser que você venha a precisar de uma bengala. Por acaso os moinhos pararão de moer? Não, os moinhos não param de moer. Mas você parará de ouvir. Você está surdo. Seu mundo ficará cada vez mais silencioso. E conversar ficará penoso. Você verá que todos estão rindo. Alguém disse uma coisa engraçada. Mas você não ouviu. Você rirá, não por ter achado graça, mas para que os outros não percebam que você está surdo. Você imaginou uma velhice gostosa. E até comprou um sítio com piscina e árvores. Ah! Que coisa boa, os netos todos reunidos no "Sítio do Vovô", nos fins de semana! Esqueça. Os interesses dos netos são outros. Eles não gostam de conviver com deficientes.
Eles não aprenderam a conviver com deficientes. Poderiam ter aprendido na escola mas não aprenderam porque houve pais que protestaram contra a presença dos deficientes.
A primeira tarefa da educação é ensinar as crianças a serem elas mesmas. Isso é extremamente difícil. Fernando Pessoa diz: Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim. Frequentemente as escolas esmagam os desejos das crianças com os desejos dos outros que lhes são impostos. O programa da escola, aquela série de saberes que as professoras tentam ensinar, representa os desejos de um outro, que não a criança. Talvez um burocrata que pouco entende dos desejos das crianças. É preciso que as escolas ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos!
A segunda tarefa da educação é ensinar a conviver. A vida é convivência com uma fantástica variedade de seres, seres humanos, velhos, adultos, crianças, das mais variadas raças, das mais variadas culturas, das mais variadas línguas, animais, plantas, estrelas... Conviver é viver bem em meio a essa diversidade. E parte dessa diversidade são as pessoas portadores de alguma deficiência ou diferença. Elas fazem parte do nosso mundo. Elas têm o direito de estar aqui. Elas têm direito à felicidade. Sugiro que vocês leiam um livrinho que escrevi para crianças, faz muito tempo: Como nasceu a alegria. É sobre uma flor num jardim de flores maravilhosas que, ao desabrochar, teve uma de suas pétalas cortada por um espinho. Se o seu filho ou sua filha não aprender a conviver com a diferença, com os portadores de deficiência, e a ser seus companheiros e amigos, garanto-lhes: eles serão pessoas empobrecidas e vazias de sentimentos nobres. Assim, de que vale passar no vestibular?

Li, numa cartilha de curso primário, a seguinte estória: Viviam juntos o pai, a mãe, um filho de 5 anos, e o avô, velhinho, vista curta, mãos trêmulas. Às refeições, por causa de suas mãos fracas e trêmulas, ele começou a deixar cair peças de porcelana em que a comida era servida. A mãe ficou muito aborrecida com isso, porque ela gostava muito do seu jogo de porcelana. Assim, discretamente, disse ao marido: Seu pai não está mais em condições de usar pratos de porcelana. Veja quantos ele já quebrou! Isso precisa parar... O marido, triste com a condição do seu pai mas, ao mesmo tempo, sem desejar contrariar a mulher, resolveu tomar uma providência que resolveria a situação. Foi a uma feira de artesanato e comprou uma gamela de madeira e talheres de bambu para substituir a porcelana. Na primeira refeição em que o avô comeu na gamela de madeira com garfo e colher da bambu o netinho estranhou. O pai explicou e o menino se calou. A partir desse dia ele começou a manifestar um interesse por artesanato que não tinha antes. Passava o dia tentando fazer um buraco no meio de uma peça de madeira com um martelo e um formão. O pai, entusiasmado com a revelação da vocação artística do filho, lhe perguntou: O que é que você está fazendo, filhinho? O menino, sem tirar os olhos da madeira, respondeu: Estou fazendo uma gamela para quando você ficar velho...
Pois é isso que pode acontecer: se os seus filhos não aprenderem a conviver numa boa com crianças e adolescentes portadores de deficiências eles não saberão conviver com vocês quando vocês ficarem deficientes. Para poupar trabalho ao seu filho ou filha sugiro que visitem uma feira de artesanato. Lá encontrarão maravilhosas peças de madeira...

13 comentários:

Anônimo disse...

Professora!O texto escrito é a mais pura realidade em algumas situações e lugares. Ainda existem preconceitos com pessoas defcientes, mas em compensação já outros tentam e fazem algo para colaborar com as mesmas.As passagens escritas são muito bonitas e reflexivas,principalmente a história da gamela. Conclui-se que pensamos de forma presente e não futuro. Vimos apenas o hoje e não nos lembramos que um dia poderemos ter algum tipo de necessidade ou deficiência.Vale a pena pensar um pouco sobre este assunto e repassar àquelas pessoas individualistas,que pensam apenas em si e não vêem a dificuldade alheia.FABIANE KOLLING

Michele disse...

Professora Regina!
Uma lição de vida esse texto, lendo ele percebo como somos individualista e egoísta, pois todos nós temos ou teremos uma deficiência. Todas as pessoas deveriam ler esse texto, para saber a importância de uma criança deficiente, pois ela passa uma lição de vida, e deve ser respeitada e admirada por todos.Também percebo a importânica de outras crianças ter contato com pessoas com alguma deficiência, pois ela aprende a respeitar a individualidade de cada um.Michele Crisane Abdo

Loiana disse...

Professora Regina!
A cada leitura que faço proposta por você em relação as diferenças ou deficiências, tem contribuido muito a minha mudança de pensamento.
Como você mencionaste, o escritor "de uma simples palavra ele consegue filosofar nos transportando a questinamentos"...
Como pais ou futuros papais, nos consideramos responsáveis pela educação de nossos filhos, então, se queremos os mesmos incluso na sociedade, temos que ensinar a conviver com a diversidade, pois hoje com algumas diferenças estão inclusos, mas e amanhã... o excluído hoje, pode ser um de nós amanhã?
Adorei o seu Blog!!!
[]s,
Loiana

Douglas disse...

Professora!!

Penso que a ralidade que passamos hoje está longe da realidade que sonhamos, mas precisamos fazer a diferença nem que seje peguena, pois no futuro vamos herdar algum tipo de deficiência e concerteza nossos netos não terão tolerância de aturarmos, nós mesmos.Precisamos mudar essa idéia que vem de gereção em geração, então cabe a nós, mudarmos o nosso futuro.

Douglas Bedinot da Rocha.

Douglas disse...

Professora!!

Penso que a ralidade que passamos hoje está longe da realidade que sonhamos, mas precisamos fazer a diferença nem que seje peguena, pois no futuro vamos herdar algum tipo de deficiência e concerteza nossos netos não terão tolerância de aturarmos, nós mesmos.Precisamos mudar essa idéia que vem de gereção em geração, então cabe a nós, mudarmos o nosso futuro.

Douglas Bedinot da Rocha.

Anônimo disse...

Professora!!

Penso que a ralidade que passamos hoje está longe da realidade que sonhamos, mas precisamos fazer a diferença nem que seje peguena, pois no futuro vamos herdar algum tipo de deficiência e concerteza nossos netos não terão tolerância de aturarmos, nós mesmos.Precisamos mudar essa idéia que vem de gereção em geração, então cabe a nós, mudarmos o nosso futuro.

Douglas Bedinot da Rocha.

Anônimo disse...

Professora!!

Penso que estamos distantes da realidade que sonhamos para os portadores de deficiência, temos que ser perseverantes e lutarmos para que esse hábito mude, pois mais tarde seremos pessoas de mais idade, teremos algum tipo de deficiência, devido a idade. Ensinaremos, então para os nossos netos que as pessoas com deficiência não tem os mesmo direito, como todo cidadão, seria muito errado, pois assim nos tratariam, como pessoas diferentes do padrão "normal".

Douglas Bedinot da Rocha.

Naty! disse...

ESTOU IMPRESIONADA! Como podemos ser assim??? A quetão da deficiência se manisfesta em nossas vidas das maneiras mais sutis e o pior é que não percebemos. Um texto como este me faz parar e refletir como pensamos e agimos errado. Deveríamos ter aprendido a conviver com as diferenças, mas não aprendemos. Nos cabe agora ensinar nossos alunos e principlamente nossos filhos e familiares o quanto é importante estarmos preparados para sabermos lidar em essas situações, se não quizermos ganhar uma gamela daqui alguns anos!!! Chega de preconceito gente!!!! Natália Cristina da Silva.

Jaqueline disse...

Olá Professora! Cada vez mais vejo que não tinha noção do quanto eu desconhecia esta realidade. Este texto não somente nos ensino a encarar que qualquer um hoje pode ser o portador de alguma defeciência amanhã, extremamente revelador e nos leva a reflexão sobre a nossa existência. Excelente!!! Obrigada por esta oportunidade!

Marcinha disse...

Professora, entendo bem isso tudo, meu próprio pai pensa assim, ele não concorda e não entende a inclusão nas escolas. Tbm já conhecia a história do menino com a gamela, fiquei impressionada com o poema.
Parabéns pelo trabalho.

Anônimo disse...

Gosto muito do Rubem Alves e este texto nos leva a refletir sobre nosso papel como educadores e também como pais. Percebemos o quanto ainda é preciso mudar a mentalidade das pessoas em relação às deficiências, as atitudes, a dedicação e o amor ao próximo, independente de sua condição. Muito ainda há que ser feito e nós, professores, enquanto também formadores de opinião, temos que assumir o papel de disseminador de informações e orientações sobre o tema, proporcionando momentos de discussão e reflexão no ambiente escolar, buscando mudar esta realidade.

Lucila Estabel

idernei disse...

Professora, é o que acontece, eu não conseguiria imaginar meu filho estudando na mesma sala que tivesse alunos com alguma deficiência, A grande maioria das pessoas possui esse pensamento: Atender a esse aluno com deficiência, vai atrazar toda a turma.Deveria ser bem ao contrário, ter um colega com alguma deficiência de certa forma poderá servir para os alunos "normais" derem mais valor para suas vidas...e com certeza fará com que eles tenhsm uma visão bem diferente das coisas.

Elis disse...

Oi Regina! Acho esse texto simplesmente fantástico, também tenho um link pra ele no meu blog e Rubem Alves dispensa qualquer comentário. Que bom que disponibilizou ele pra seus alunos. Acho mesmo que se existe alguma duvida a respeito da inclusão pelo menos para refletir por um bom tempo ele serve.
Abraços